"Quem dançava era tido como louco por quem não conseguia ouvir a música"
Se minha Teoria da Relatividade estiver correta, a Alemanha dirá que sou alemão e a França me declarará um cidadão do mundo. Mas, se não estiver, a França dirá que sou alemão e os alemães dirão que sou judeu.
Acordava. Eu acordava e pela primeira vez era como se fosse a primeira vez, como se tivesse passado a vida dormindo e fosse inédito o raiar do sol nos meus olhos, estes doloridos de choque. Nunca soube ao certo explicar, mas quando você pensa demais sobre esse tipo de coisa, deve estar paranoico. Às vezes sinto que não há realidade e tudo é somente um jogo de farsas bem feitas, um jogo baixo de manipulações sujas. Tudo um sonho fútil e sem sentido em mais uma noite de insônia. Até o momento, sinto que estou quase morta, só respirando e observando a vida passar. Sei que não faz sentido, mas há dias em que eu não tenho percepção do real, percepção do mundo ao redor, como se só existisse a minha mente e nada mais. Nesses dias, posso ser e fazer o que quero, mas não vejo, que lá no fundo, eu estou presa, ilhada, faminta e ferida. Presa pela presença avassaladora dela que me é tudo, mas ausente. Ilhada dos ideais que tanto amo e defendo. Faminta de medo. Ferida… Por mim mesma. É aí que você corre da prisão direto para o hospício, o ponto extremo de insanidade em que você tem que recorrer ao apoio clinico para se entender. O que é mentira, sabem que não há solução e o usam somente para aliviar. Amarrada, trancada, sozinha, surda e muda. Mas surda e muda somente para mim. Todos escutam os gritos e como se um animal estivesse sido abatido ali dentro, acreditam realmente que se trata de um delírio louco. Eu sou fogo, não fui feita pra viver meio a meio, viver mais ou menos, ou existir de menos. Pra ser trancada e controlada. E eu quero, e vou, fugir disso.
De poeira ele havia se sujado ao cair no chão e pela primeira vez não havia sido enxuto por pano sujo. Branco e doce, era o leite que a mulher amorosa havia preparado para os amorosos filhos e para o amoroso marido. Branco era a cor do ódio destilado dos que lhe seguravam a garganta agora. Doce era o que suas lágrimas não eram, e que grande ironia também eram, ela estava chorando sob o leite derramado pelas mãos brancas para as quais implorava pela sua vida. Branco era a cor de seu vestido rodado, comprado pelas mãos negras do seu amado esposo que a amava tanto, amado esposo que muito distante dali arrancava no chão uma flor branca para enfeitar os cabelos negros da amada esposa de bochechas cor de terra escura assim como os seus bonitos e brilhantes olhos, o amado esposo jamais havia deixado de vê-la como a coisa mais bonita que já havia visto na vida, o amado esposo desde a primeira vez que a vira sabia que a queria como sua amada esposa para toda sua vida. Branco também era a cor dos dentes expostos da amada esposa que agora gritava enquanto o ódio branco lhe tirava algo que antes era só de seu amado esposo, algo tão especial que a amada esposa havia decidido guardar e dar somente ao amado esposo desde a primeira vez que o havia visto colhendo algodão na fazenda de seu senhor. Naquele momento ela só conseguia pensar naqueles algodões brancos, por que o homem branco não era capaz de ser tão gentil como o algodão branco? Logo o amoroso marido chegava, mas que pena, as flores brancas ele deixou cair sujando-as de poeira. Os amorosos filhos também deixaram lágrimas caírem sobre elas assim como a amorosa mãe havia deixado sob o leite. Com os braços negros fortes, o amoroso marido pegou nos braços a esposa e a corda de seu pescoço tirou, deitou-a no chão e colocou as flores sujas em seu cabelo negro enquanto via sua casa de paredes brancas se tornar negra pelas mãos do fogo, fogo servo das mãos brancas regadas do ódio branco que matara sua esposa da cor de terra molhada.
Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro. Nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: Em que espelho ficou perdida a minha face?
Hoje levantei cedo pensando no que tenho a fazer antes que o relógio marque meia noite. É minha função escolher que tipo de dia vou ter hoje. Posso reclamar porque está chovendo ou agradecer às águas por lavarem a poluição. Posso ficar triste por não ter dinheiro ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças, evitando o desperdício. Posso reclamar sobre minha saúde ou dar graças por estar vivo. Posso me queixar dos meus pais por não terem me dado tudo o que eu queria ou posso ser grato por ter nascido. Posso reclamar por ter que ir trabalhar ou agradecer por ter trabalho. Posso sentir tédio com o trabalho doméstico ou agradecer a Deus. Posso lamentar decepções com amigos ou me entusiasmar com a possibilidade de fazer novas amizades. Se as coisas não saíram como planejei posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar. O dia está na minha frente esperando para ser o que eu quiser. E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma. Tudo depende só de mim.